quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Pintora

Foi-me entregue uma tela em branco e meia dúzia de pincéis. Foi-me dito que se pintasse bem receberia mais cores e mais pincéis. Comecei a obra e entusiasmei-me porque havia desenhos muito bonitos; as paisagens sucediam-se a toda a hora cheias de vibrantes cores para reproduzir. Depois comecei a duvidar que as minhas pinturas fossem realmente bonitas, não havia lá assim muita gente a ver e eu sentia-me sozinha no meu gosto e forma de estar. Procurei o silêncio e acabei por me isolar não recebendo nem novos ensinamentos, nem orientações definidas. Já não recebia tantos pincéis e as cores repetiam-se escolhidas por toda a gente, menos por mim. Revoltei-me e mudei de atelier. Encontrei novas paisagens, recebi novos pincéis e conheci outros pintores. Acreditei. A seguir consegui respirar novas correntes e encontrei um oásis. Assentei junto dele e fiquei com eternidade. A eternidade que se sente e se respira e se constrói. Quero pintar, quero assinar telas. Sou aprendiz, mas isso serei sempre, quero ser sempre. Quero existir de forma consistente e concreta. Não quero não ser. Não quero o vazio.

Sou daquelas pintoras que pintam por inspiração e que guardam o tema para descortinar depois. Quando reparo já alguém decidiu o tema e eu cumpri, sigo ao sabor do vento, sem que eu sopre vento para alguém. Eu sou a que segue ao sabor do vento, não a que faz vento. Sinto-me feliz assim, mas sempre? Sempre é muito tempo...

Quero sentir o sol, quero ser o sol, quero que o sol more em mim...